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segunda-feira, 13 de junho de 2011

3x4


Acabei de ler um livro e comecei a ler outro que me fora indicado há tempos por um amigo, mas que eu havia deixado jogado numa gaveta qualquer. Não sei o que está se passando na minha cabeça, e por que escrever algo justamente pra você. Como se você ainda tivesse importância, como se sua existência me fizesse alguma diferença. Eu bani você da minha vida quando quase acabei com minha vida por você. E por que essa vontade, logo agora, depois de anos, de escrever pra alguém que nunca teve interesse nenhum nos meus rabiscos e que nunca me compreendeu, quando na verdade, eu sei que meus devaneios não interessam a absolutamente ninguém.

Voltei a me sentir como a menininha estranha e patética de oito anos atrás. E não há como pensar no meu passado, nem analisar todos os meus problemas de hoje sem lembrar de você.

Você me reduziu a nada para estar a sua altura. E hoje, enquanto te escrevo e talvez justamente por isso, pela primeira vez na vida eu mesma me rebaixo a sua altura. Sinto-me um verme e não me importo em escrever para outro verme. Tão desmerecedor de amor e/ou de ódio como milhares de pessoas no mundo.

Eu tinha só quinze anos. O que eu faria se você não tivesse entrado na minha vida naquela época? Eu teria evoluído? Teria aprendido a mentir? Teria uma vida hoje pelo qual eu me orgulharia de fato? Ou eu estaria ainda pior? A verdade é que a gente nunca sabe, só podemos imaginar o que poderia ter sido e não foi. Antes não nos fosse permitido nem imaginar.

Desde quando eu tenho isso, essa deficiência no sentir? Desde quando eu me sinto esse lixo, esse monstro, eu era assim antes de você?

Quem eu seria hoje sem os hematomas visíveis que você deixou espalhado pelo meu corpo e sem os traumas invisíveis que marcam minha alma?

Eu que já me senti a melhor pessoa do mundo, eu que já agradeci a Deus por todas as vezes que Ele agiu em minha vida, me sinto, hoje, desonrada de suas graças.

Não estou escrevendo para te ofender, para me vingar, ainda que pareça exatamente isso. Não foi minha intenção quando comecei a escrever, porque como já disse, não sei qual é minha intenção de fato. Talvez eu esteja mais uma vez me torturando e escrever sobre você tenha sido mais uma das minhas formas de manter minhas dores e fantasmas vivos, como que por castigo. Estou me castigando por estar viva e por me sentir morta. É isso? Eu não tenho respostas, escrever não vai me trazer respostas, não vai me trazer alivio, não vai me fazer sentir melhor. Não preciso rebaixar ninguém para me sentir melhor. Nunca fui de rir com as desgraças alheias. Humor negro nunca me atraiu.

É que eu não gosto da mulher que me tornei. Ou melhor, da mulher que sou agora. Talvez eu ainda tenha salvação. Eu queria saber e talvez só você possa me responder: antes eu era uma boa pessoa? Essa resposta só alguém como você pode ter... alguém quem me conheceu tão bem, que me fez de fantoche, que sabia tão genialmente meus pontos fracos, deve ter tido tempo de conhecer meus pontos fortes. Foram por eles que você se apaixonou, não?

Não sei se você se perdoou pelo que fez, não sei nem se algum dia você se sentiu culpado por tudo que aconteceu. Mas queria muito saber se antes de tudo aquilo eu era melhor. Essa minha tendência à tristeza sempre existiu? Eu não me lembro de querer morrer antes dos 15, antes de você. Na minha cabeça tão atormentada eu passei a pensar em suicídio depois que você me fez perder o amor na minha vida. Porque você se tornou maior que minha própria vida, porque eu aceitava as marcas que você me deixava e voltava pra você no dia seguinte, sentindo o mesmo amor que sentia antes. O amor não diminuía, quando tinha que diminuir. Uma pessoa normal colocaria um basta. E eu fingia que nada havia acontecido e corria pros seus braços como se você fosse o melhor homem do mundo. Que tipo de pessoa eu era? Talvez eu nunca tenha sido normal. Essa suposta verdade me parecia tão dura antes, mas eu já posso começar a aceitar.

Faz quanto tempo que eu ando a beira do abismo? E se não foi você o causador disso tudo? Como eu me tornei isso? Como eu aprendi a me odiar?

Eu não sou triste sempre. Eu tenho fases. E eu sempre saio de todas as minhas crises. Acho que só estou assustada porque essa está demorando um pouco mais. E talvez tenha sido só o desespero que tenha me feito escrever logo pra você. Logo você que nunca se sentiu um lixo por ter feito sentir-me um lixo. Logo você que fez o que fez e achou que era tudo o que eu merecia. E eu não te vejo com maus olhos por isso. Eu também, na época, achava que eu merecia tudo aquilo e mais. Merecia a morte. Tentei até, você lembra? Você não levou muito a sério, eu tinha uma alma dramática e aquilo para você, foi só mais um dos meus shows, que no fim, não deu em nada. Afinal, estou aqui ainda.

Quando tudo aquilo aconteceu e eu quis morrer ninguém notou que eu já havia perdido parte de mim. Essa parte faz falta agora, sabia? Voltar do hospital e encarar as pessoas com toda a naturalidade com que eu encarei já era um principio de loucura. Depois de quatro meses eu estava de volta à vida, aos amigos, velhos e novos, a faculdade, ao trabalho. Eu melhorei de verdade, eu voltei a enxergar a vida com cores ou eu só fingi? Será que em algum momento da minha vida eu me achei digna de viver? Ou eu só sou uma farsa e descobri só agora que a mascara que eu usei, quebrei, remendei, e voltei a usar já não tem mais conserto. E não quero usar nenhuma outra mascara, porque aquela antiga, já esteve grudada a minha cara por tanto tempo que nenhuma outra mascara se encaixaria.

Levantar da cama, hoje, pra mim, é um sacrifício tremendo, embora eu não tenha coragem suficiente para por um fim nisso. (Espetáculo que faria jus a uma vida sem nenhum brilhantismo.)

De onde você tira força para acordar no dia seguinte? Você não se sente assim como eu? A que ponto do fundo do poço eu cheguei que ninguém mais me alcança? Não há corda que chegue até aqui. E é por isso que falo com você. Sim, deve ser por isso. Porque eu acho que só você está a minha altura agora. Porque só você, pra mim é tão verme quanto eu nesse momento. Mas você esta ai, rindo da vida, brincando com a felicidade, enquanto eu estou aqui duvidando da minha lucidez.

Eu estaria melhor agora, se tivesse aprendido a mentir, a manipular as pessoas e seus sentimentos, a rir da cara da tristeza, a caçoar da dor alheia?

Quem eu seria se você não tivesse passado pela minha vida como um temporal?

Nunca me senti tão desmerecedora de um milagre pra me salvar, como me sinto agora. Eu não quero ser salva e por isso te escrevo, você seria a ultima pessoa que me salvaria.

Eu poderia ter te escrito em outras épocas, nas minhas épocas de glória, para te dar o gosto de ver que eu havia me tornado uma pessoa melhor. Mas só agora, no fundo do poço eu senti vontade de te escrever. Não sei o que estou tentando provar. Só queria achar a raiz do meu problema. Nunca desejei seu mal, embora a idéia de pensar que você estivesse bem, me incomodava, eu confesso.

E é engraçado, como cada vez mais me convenço de que todo o potencial de maldade que eu tenho em mim, jamais seria usado contra outras pessoas: de todo o mal que eu posso fazer, eu só posso fazer a mim mesma. Logo eu que tanto quis ser heroína, sou minha pior vilã.

E eu olho pra você, e te vejo tão afundado na lama quanto eu, tão sem salvação, tão sem fé, tão sem amor e me identifico com isso agora. Meus pés estão presos na mesma areia movediça e se eu me esforçar pra sair, afundarei mais rapidamente. É assim que você se sente? Se for, estou te dando um presente. Verá que não é o único que se sente assim.

Eu estou me auto-sabotando. A culpa é de quem? Eu procurei jogar a culpa em todos que algum dia me fizeram mal, mas não é justo, vamos falar bem a verdade. E eu deveria me perdoar então por estar acabando com tudo? Claro que não. Não mereço meu perdão. Eu só preciso me achar merecedora de algo bom. Todo mundo merece, até você merece. Por que eu não?

Eu sei que não posso passar minha vida procurando culpados pro meu fracasso e sei que foram minhas escolhas que me arrastaram pra cá, pra baixo, pro fundo do poço. Mas nada me tira da cabeça que se você não tivesse feito parte da minha vida, tudo estaria melhor. E se você me pedisse perdão por tudo que fez, me faria diferença?

Como você se sente? Você acha mesmo que eu merecia me tornar essa pessoa ridícula e vazia e cheia de medos, traumas e paranóias? Não há pior castigo no mundo do que ser eu. E que mal tão grande eu fiz pra merecer tudo isso? Estou me tornando alguém viciada em solidão. Não quero pessoas a minha volta, não quero que vejam meu estado. Todos estão acostumados com minhas risadas e não com meu choro. Quem sabe que no fundo eu sou isso aqui? Que no fundo eu não sou nada. Que no fundo eu me acho um verme. Quem sabe de tudo isso? Você sabia? Você suspeitava do fracasso que sou?

Não há soluções quando não temos mais esperanças. As ilusões dançaram, meu caro. Você mantém viva suas ilusões? Elas te fazem acordar no dia seguinte com um sorriso no rosto? Minha máscara já se espatifou no chão. Não me sinto mais na obrigação de provar pro mundo que eu sou boa, simplesmente porque agora eu sei que não sou. Essa é a verdade e você esteve certo todo o tempo. Eu sempre fui esse lixo aqui, muitas vezes fantasiada de pessoa normal, de qualquer um. Já acreditaram no meu personagem. Mas eu quero sair de cena, interpretar não me dá mais prazer. Nada mais me dá prazer.

Disseram-me que não posso fugir da vida pra sempre. Mas esqueceram que sou eu que mensuro quanto tempo dura meu pra sempre. Morrer acaba com o para sempre. Morrer acaba com tudo.

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