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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Melodias inaudíveis...




e

[Caio F.]


Ninguém nunca falou, mas nos amamos. (conjugado dessa forma, no presente e no passado) Cada qual no seu lugar. Nos amamos em silêncio. Ele nunca me disse. Eu nunca falei. E nós dois sempre soubemos.
Passei tanto tempo achando que havíamos nos conhecido no tempo errado, que se fosse antes teria sido diferente. Sei que ele também pensou isso. E hoje sabemos que nos conhecemos no tempo certo. No tempo exato. Não podíamos interferir o fluxo de vida do outro. Estávamos fadados a conviver com o algo que não sairia jamais dos nossos pensamentos. Então fizemos a melhor escolha. Cuidamos um do outro à distância.
Não há história de amor mais real que essa, que nunca existiu.
Por trás de cada promessa não feita, de cada beijo não dado, de cada música que não escutamos, de cada filme que não assistimos, de cada carinho que não trocamos, a admiração que sentíamos um pelo outro só cresceu.
Ninguém, além de nós dois, poderá contar essa história. Na verdade, nem nós dois poderíamos contar uma história que só existiu no papel. Fomos personagens de uma história que não saiu do papel. Fomos rascunho.
Diante de tudo o que era proibido, aceitamos nossos lugares. Vivemos nossas vidas, cada qual no seu lugar. Nunca ousei interferir ou mudar o rumo da história dele, e ele fez o mesmo. Assumimos nossos papéis. Não participaríamos do mesmo filme. Ficamos de longe observando o desenrolar de cada cena da vida um do outro. Fomos platéia.
Vibro com suas conquistas, me entristeço quando algo em sua vida dá errado. Falo no singular, falo por mim. Mas sei que com ele também é assim. Torcemos um pelo outro. No plural.
Arrumamos um jeito sereno de fazer parte da vida um do outro. Somos amigos.
Porque eu sei que ele me entende como ninguém. Me dá conselhos, segura minha mão, me empresta o ombro pra eu chorar, me conta historias pra dormir, me faz rir, me diz que vai passar. Ele é meu porto seguro. E será. Seguiremos nos protegendo, cada um no seu lugar. Eu não caberia no destino dele, ele não caberia no meu destino. E ainda assim, eu sei que é ele que me entende como ninguém. É pra ele que eu conto sobre minhas duvidas, sobre meus medos, sobre meus amores. Ele me lê. Lê o que eu escrevo e gosta. Eu sei que ele gosta. Já escrevi isso em um texto. Aqui sou eu, vestida de mim. Aqui sou eu, sem máscaras. Aqui são meus pensamentos mais secretos, ainda que inventados. Porque perto dele eu sempre pude ser eu mesma sem medo algum. Sem medo de assustá-lo. Ele jamais se assustaria.
A minha falta de maturidade sempre encontrou abrigo no excesso de maturidade que eu vejo nele. E o seu excesso de maturidade sempre encontrou abrigo na minha falta de maturidade, na minha mania de querer ser criança pra todo sempre, e de fazer bico e birra, e de bater o pé quando quero algo.
Diante de tudo que era proibido, encontramos um lugar seguro pra cuidar um do outro. Seguimos nossas vidas fazendo o que era certo, o que devia ser feito. Soubemos desde o primeiro momento que nossa história só existiria nos meus livros. Nossa história, eu escrevo. Ele lê. E é só isso. Mas isso é tudo, entende?
Continuo escrevendo, continuo ouvindo nossas músicas que marcaram momentos. Melodias inaudíveis que meu coração sabe de cor e salteado. O dele também sabe, eu sei.
Não temos contrato, não fizemos promessas, não temos dever nenhum, mas cuidamos um do outro da maneira que nos cabe e seguimos nossos caminhos. Assistimos e vibramos com a história um do outro. E será assim até o resto de nossas vidas. Eu sei.
Diante da impossibilidade, inventei outros amores. Aprendi com ele, que o pior sofrimento é não sofrer por amor. E aprendi mais. Todos os amores são eternos, e não temos uma vida inteira pra amar uma só pessoa. Seria um desperdício.
De todos os amores que existiram (ou não), esse é o mais bonito: um amor que não encontrando espaço pra crescer livre, se vestiu de amizade pra crescer pra sempre...

Taila Ueoka.

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