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domingo, 14 de novembro de 2010

Era uma vez...


Eu precisava matar a autora de tantos dramas. Quantas vezes eu tentei recomeçar e tropecei desajeitadamente em tantos entulhos, tanto lixo, tantas cartas, tanta poesia, tantos sonhos, tantos amores, tantos horrores que eu guardava numa caixinha e abria de vez em quando pra me contorcer de desprazer e chorar memórias. Era o meu passado vindo à tona naquela caixinha toda vez que eu tentava dar um passo a frente e pensar só no futuro. Com o tempo eu acumulei tanta coisa, excesso de bagagem que não me acrescentava nada de bom.
Joguei a caixinha pela janela e vi se espalhando no céu declarações de amores que fiz a pessoas que saíram da minha vida, mas não morreram em mim, declarações de amores que me fizeram quando eu ainda confiava em tudo e tais declarações já não faziam mais sentido, já não era mais eu, era a autora tomando conta da minha vida, vi as fotos de um passado distante onde os sorrisos eram sinceros. Bilhetes de cinema, pulseirinhas de balada, papéis de bala, convites de festas, passagens aéreas. Vi espalhado pelo céu lembranças que foram especiais num tempo em que eu não sabia que as recordações mais importantes e que mais marcariam minha vida eram as intangíveis. Joguei também pela janela o que eu guardo na memória, todos os sonhos que fiz e refiz no tempo em que a ficção tomava conta da minha realidade, as cicatrizes que eu trago no corpo e na alma, que eu já não sabia mais se ainda doíam de verdade, vi os horrores que permiti que fizessem comigo sofrendo em silêncio durante meses, datas jamais esquecidas, despedidas, vitórias e fracassos que ficaram pra trás, inclusive uma tentativa frustrada de por fim a tudo. Joguei tudo isso pela janela com a mesma coragem que arremessei a caixinha e foi então que vi no céu uma tempestade desabar diante de memórias tangíveis e intangíveis.
Observando o temporal, me perguntei se ainda sofria de verdade. Vi meus personagens caindo um a um no abismo que um dia eu preparei pra mim. Personagens que ganharam vida à medida que escrevia sobre eles e tomavam o meu lugar, o meu espaço, o meu papel. Comecei a viver minhas dores e todas as outras que inventei. Eu ergui tantas paredes rabiscadas por medo, solidão, desespero, amores perdidos, angústia, loucura. Paredes sólidas que me separavam cada vez mais da vida que eu queria ter. Derrubei todas as paredes chorando como uma criança. Eu havia perdido o controle de mim. Não sabia mais separar o que eu escrevia. Vivia nos meus personagens, e todos os meus personagens eram tristes. Eu tentava reorganizar o passado incansavelmente e viver só o presente, enquanto isso, a autora se agarrava ao passado com tanta força que eu chegava a dar passos pra trás. Andei em círculos. Quando eu desistia e era obrigada a assumir ao mundo que eu havia apenas recomeçado, eu não andava pra frente, eu dava voltas e mais voltas e acabava de novo do mesmo ponto de partida.

Descobri em mim uma mulher incrível, mas ainda estava amarrada ao passado. Pra acabar com o passado eu tinha que matar a autora que persistia em escrever sobre ele e sobre mim quando eu ainda não havia encontrado uma definição exata. A autora me definia como uma pessoa indefinida. E definir é aprisionar. Estava aprisionada na visão da autora como alguém que não sabia quem era, que tinha medo de tudo, que tinha medo de desagradar, que não confiava em si, que não sabia do potencial, alguém que nasceu para amores impossíveis, para sentir amor e não viver um grande amor, alguém que não nasceu pra ser amada. Tudo invenção de uma autora maluca, e eu me sentia tão pesada e presa às definições que ela havia me dado, e mesmo deixando de acreditar nos personagens que ela inventou, eu ainda vivia de acordo com o que a autora escrevia...
Uma base bem feita impede o desmoronamento. E minha base era fraca demais, por isso desmoronei tantas vezes e fui fazendo retoques e remendos que não duravam tanto tempo. Só então me dei conta que a implosão de uma estrutura inteira é a coisa mais sábia a fazer em determinados momentos. Não bastava encerrar um capítulo e começar outro, eu tinha que por fim no livro.
Empurrei a autora pela janela junto com sua caneta e seus papeis, suas histórias e todo o drama que ela havia inventado. Ainda escutei seu grito de socorro antes de chegar ao chão. Fiz de conta que não ouvi.
Fim desse livro.


Taila Ueoka.

4 comentários:

  1. ficou realmente muito bom seu texto. você escreve muito bem!

    seguindo *.*

    http://sonaturally.blogspot.com/

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  2. Olha só como a vida é engraçada:
    Coloquei no Google "Borboletas no Aquário", só pra ver se os posts do meu blog apareciam. Achei o seu com o nome bem parecido e resolvi dar uma lidinha. Qual a minha surpresa quando eu vejo que vc também escreveu sobre uma caixinha de memórias?! Esse foi meu último post, haha. Coincidências da vida!
    Curti demais teu blog, parabéns! =)

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  3. Ah, se quiser, dá uma olhada no post depois: http://borboletasnoaquario.blogspot.com/2011/05/o-futuro-do-amor.html

    =)

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  4. Maria Leticia e Glaucia, obrigada. E... eu gostei muito (e de verdade) do blog de vcs! Obrigada pela visita!

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