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sábado, 27 de novembro de 2010

Aqui jaz!


Coleciono fantasmas, porque nunca enterrei meus mortos.

Numa outra vida cheguei a acreditar que só se vive uma vez, mas não posso mais concordar com isso porque eu mesma já perdi a conta de quantas vezes morri e quantas vezes matei. Admito meus crimes agora, mas confesso não guardar culpa alguma. Todos colecionam fantasmas.

Quando somos incompetentes pra matar o amor, temos que, ao menos, ser competentes pra matar aquilo ou aquele que amamos. Temos que ser frios também, muitos se relutam a morrer e é necessária tamanha violência que faz com o que o sangue respingue em nossas faces.

Há um cemitério onde eu deveria enterrar meus mortos, mas só há covas vazias, milhares de coroas de flores desperdiçadas.

Cometi crimes perfeitos. Meus mortos andam soltos por aí, pois nem sabem que morreram pra mim.

Eu também já morri pra tantas pessoas, por tantas pessoas. Incontáveis suicídios e um único homicídio. Só uma vez eu doí tanto em alguém a ponto de ousarem me matar. Confesso mais uma vez, foi a pior morte. Não a primeira, mas sem dúvidas, a pior. Se fecho os meus olhos, posso ver os olhos dele vermelhos de dor ou de ódio, até hoje não decifrei a fúria daquele olhar. Essa morte me deixou feridas profundas que nunca cicatrizaram, sangram até hoje. E me pergunto se esse sangue que julgo ser meu não é deles, dos meus mortos.

Não quero reabrir velhas feridas, suponho que qualquer esbarrão as fariam sangrar novamente. Em cada ferida fechada existem guardadas dezenas de mortes, centenas de vidas.

Quantas vezes somos capazes de ressuscitar? E por quanto tempo todos esses mortos serão capazes de me assombrar?

Eu rezo todas as noites por cada morte – minha e deles. Peço perdão pelos crimes cometidos e peço que os fantasmas me deixem em paz. Se me descuido eles ainda fazem festa na minha memória e dançam ao som da marcha fúnebre, enquanto eu rio.

Minha mente refugiou-se na loucura quando a razão passou a ser insuficiente. E agora ela ocupa um corpo que eu já nem sei se me pertence.

Carrego um corpo cansado, aceito a morte sem relutar. Que venham as próximas. Grito, mas meu grito soa tal qual sussurro.

Ninguém sabe das minhas dilacerações nem do meu coração habitado por fantasmas que ora escolhem minhas memórias, ora escolhem meu coração como o melhor lugar para se instalarem. Fantasmas estes, que não me deixarão nunca porque fazem parte da minha biografia e estão tatuados na minha alma. Se eu começasse a contar a história da minha vida (ou das minhas mortes) hoje, terminaria numa próxima esquina com mais algum morto estendido ao chão.

Deixo que minhas unhas cresçam para cravá-las em meu próprio peito. E me questiono: para que assassinar o que já está morto?

Preparo minhas armas, me visto de preto então para mais um funeral.

É necessária total frieza e uma dose extra de crueldade para assassinar quem amamos. (Eu teria que escolher entre ele e eu). Algumas mortes são inevitáveis.

Legítima defesa, eu alego, por mais esse crime perfeito, mais um fantasma que habitará minha memória ou meu coração – seja bem vindo! (Aqui jaz mais um amor!)

Sem medo, sem culpa. E não espero pelo Juízo Final, afinal ele se realiza todos os dias!

(Me desculpem a crueldade.
Ao terminar o texto me assustei com tantas palavras pesadas que despejei, mas foi inevitável. Papel em branco, lapiseira em mãos e isso foi tudo o que minha mente foi capaz de pintar no papel. Falei de tantos mortos e não fui capaz de derrubar uma lágrima sequer. Se chorei, chorei palavras e talvez, exatamente por isso, tanto peso explícito em cada uma delas – ainda tem sangue em minhas mãos...)


Taila Ueoka.

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