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sábado, 13 de novembro de 2010

Abismo


Ontem, caminhando pela beira do rio, eu pensei que,
se desse dois passos e um impulso no corpo,
em breve tudo estaria terminado.
[Caio F.]


Ela já nasceu com essa predisposição de se jogar num abismo. Sempre esteve a beira dele. Uma única vez ousou dar um passo a frente. Quando se jogou os anjos voaram com toda velocidade e antes que ela chegasse ao fundo do abismo a resgataram e a trouxeram de volta a tona. Nenhuma pessoa notou que o passo que ela deu já estava sendo ensaiado há tempo. As pessoas não notam o que se passa na vida de outras pessoas. Cada um já tem problemas demais para olhar pro outro e entender um pedido de socorro que é feito só com o olhar. Os olhos gritaram a vida toda. A vida toda ela esteve à beira do abismo. Alguns tentaram afastar, colocar uma distancia entre o abismo e ela. Mas era o abismo que voltava pra perto dela e não ela que ia onde ele estava. Talvez o mais certo seria dizer que o abismo sempre esteve a beira dela. Ela fugiu pra tão longe. O abismo foi junto. E o abismo grita, chama seu nome. Faz promessas tão sedutoras que nenhum ser humano foi capaz de lhe fazer. Tem argumentos tão convincentes. Ela tapa os ouvidos, ela fecha os olhos, ela tenta gritar. Nada adianta. Ela olha pra todos os lados, só há abismo. E mais uma vez seus olhos pedem socorro. Mas ela não quer ser salva. Não existe maneiras de salvar alguém da loucura que inventou, ou do destino. Ela já se convenceu que se não for hoje, um dia será. Um dia ela se rende aos encantos do abismo e dá um passinho a mais. Não há mais anjos pra resgatá-la agora. Um passo a mais e tudo acaba pra sempre. Sem dor, sem passado, sem sofrimento, sem loucura, sem perdão, sem fracasso, sem conquista, sem nada.

Quem quer ser salvo pede ajuda, quem não quer não fala nada, só ensaia o próximo passo.
(Já é tarde demais pra salvá-la!)

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