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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Justo a mim me coube ser eu!



"...e eu ia chorar chorar durante muito tempo sem ninguém ver,
é verdade tenho pena de mim e sou fraco.
nunca antes uma coisa nem ninguém me doeu tanto
como eu mesmo me dôo"


e

'Um dia tu vais compreender que não existe nehuma pessoa totalmente má,
nehuma pessoa completamente boa.
Tu vais ver que todos nós somos apenas humanos."

e


"Depois de todas as tempestades e naufrágios,
o que fica de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."

[Caio F.]




Cresci com uma mania estúpida de querer ser homem. Ouvia meu pai dizendo o tempo todo: “seu irmão pode isso, porque ele é homem.” “Você não pode aquilo, porque você é mulher.”

E nunca me conformei com esse machismo intrincado que meu pai tanto pregou. Acho que a verdade, é que meu instinto de querer com muito mais força tudo aquilo que as pessoas supõem achar que eu não sou capaz, não deixou com que eu me contentasse em ser ‘mulherzinha’.

É, no meio de tantos pré-conceitos, eu acabei odiando o fato de me definirem como ‘o sexo frágil’. Associei, erroneamente, esse adjetivo – frágil – a outro – fraco. E errei de novo quando associei fraqueza à fracasso. E com tanto erros consecutivos, acabei crescendo com valores um pouco distorcidos em relação a isso.

Desde criança eu rejeitava, repugnava, tinha horror à essa palavra: fracasso - queria ser a primeira da turma, ainda que minha sala tivesse 20 alunos. Tinha que tirar notas mais altas, tinha que terminar primeiro todos os exercícios e todas as provas. Eu queria ser a melhor jogadora de handebol do colégio e só isso não me bastava, queria ser a melhor da cidade, ainda que minha cidade tivesse apenas 3 mil habitantes e 23 jogadoras de handebol. Eu queria ser a melhor jogadora de futsal e pra mim não bastava ser a melhor entre as meninas, eu queria também ser a melhor entre os meninos, eu queria ser a melhor coroinha, eu queria ser a melhor oradora, eu queria ser a melhor jogadora de truco, a melhor no esconde-esconde, a melhor na ‘bets’. Enfim, eu abominava segundos lugares. Tinha horror a prêmios de consolação.

Meu pai falava: “você não vai brincar com seu irmão, só vai ter meninos, por que você não chama sua amiguinha e vai brincar de Barbie?” Isso me soava com um insulto, um desafio. Eu pensava “Barbie é coisa de mulherzinha, se meu irmão pode brincar com os meninos, eu também posso.” E ia.

Eu não aceitava as diferenças entre homens e mulheres impostas pela sociedade.
Eu não entendia que qualquer ser humano tinha defeitos e qualidades, era melhor numa coisa e pior em outras, que todo mundo tem o direito de errar, porque é só assim que se chega à perfeição. E eu não queria passar pelos erros, eu queria atingi-la pulando fases, o que é impossível.

E sabem o que eu consegui com isso? Com tanta procura por excelência, eu consegui fugir do que tanto me abominava: eu fugi dos fracassos. No entanto, não consegui me esconder das frustrações. Era óbvio que, exigindo um esforço sobre-humano de mim, eu não ia chegar tão longe.

Acontece, que essa ‘mania’ de fugir de qualquer ação que me defina como ‘mulherzinha’ se tornou obsessão em minha vida. Esses falsos valores, dos quais eu me pego até hoje lutando contra, se tornaram regras decisivas e verdades incontestáveis e imprescindíveis pra que eu me tornasse uma pessoa (in)feliz.

E eu demorei pra perceber que a quantidade de regras que eu criava era inversamente proporcional a felicidade que eu (não) atingia.

Fui sendo infeliz, cada vez mais.

Ao longo dos anos, eu fui moldando tudo o que aprendi na infância do meu jeito, e meus valores distorcidos se tornaram bolas de neves cada vez maiores. Essa mania estúpida de querer ser homem e minha busca inconstante por perfeição só me fizeram ver o quanto eu era/sou pequena, o quanto eu era/sou frágil, o quanto eu era/sou imperfeita.

Eu me tornei uma mulher sem frescuras, mas sem frescura alguma. Poderia ser a melhor amiga de um homem. Mas que homem iria querer como mulher uma mulher que não se aceita, que não sabe o seu lugar? Que está aprendendo a ser feminina agora?

Eu precisava de paz, e pra ter paz eu precisava parar de me cobrar tanto, porque tanta cobrança acabava não servindo, de fato, pra nada. Eu não sou melhor em nada que eu faço... Me cobrava tanto, pra quê, afinal? Eu não posso tudo, o erro é humano e é na repetição que se chega à perfeição.

Eu ainda me frustro com tudo aquilo que eu não sou capaz, confesso. Mas agora eu sei que é minha condição de humana, e portanto de ser imperfeita que me possibilita fracassar, desistir – palavras que antes eu tinha medo até de falar.

Dos valores que eu aprendi quando criança, só quero guardar os que me são úteis. Aprendi muito com meu pai. E o erro por eu ter crescido assim, não está nele e sim em mim. Eu nasci com essa coisa, esse instinto, essa vontade que esmaga de querer sempre mais, de querer ser sempre mais, de querer com mais vontade ainda aquilo que – não só os outros – mas que eu também suponho impossível pra mim.

Eu fui uma criança birrenta, eu cresci fazendo birra pra vida e pra todo mundo, porque por mais que eu lutasse por espaço, a minha glória era a luta. Era a luta que me movia, independente do prêmio. E o prêmio era o meu lugar. E eu nunca soube, de fato, qual era/é o meu lugar.

Eu travei uma luta diária, onde eu era a vilã, quis me reafirmar o tempo todo, tinha nojo do meu lado homem e no entanto não conseguia me livrar dele. Eu precisava de um homem de verdade pra despertar em mim a vontade de querer ser mulher de verdade. Mulher com frescuras, mulher frágil, mulher carente. Mulher. E mais, eu precisava ser mulher pra mim e achar isso bonito, como eu tenho achado. Desde o perfume que eu me esquecia de passar até as gírias idiotas que eu tenho me controlado pra não falar. Tem sido mais fácil agora, bem mais fácil. Eu não quero mais ser o que eu não posso ser. Porque, finalmente eu aceitei que justo a mim me coube ser eu!”

Taila Ueoka.

(O título e o trecho em itálico são das tirinhas da Mafalda... sim, são da Mafalda!!!)

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