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sábado, 9 de outubro de 2010

Era uma vez...



E, depois, ele não veio mais.
Eu dava um cavalo branco para ele,
uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar,
dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse,
fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros,
com as cascas dos cocos,
até com a minha carne eu construía um cavalo branco para aquele príncipe.
Mas ele não queria, acho que ele não queria,
e eu não tive tempo de dizer que
quando a gente precisa que alguém fique
a gente constrói qualquer coisa,
até um castelo.”

[Caio F.]



Eu estava sentindo o mundo desmoronar mais uma vez.

- onde eu posso pisar?

Eu precisava de terra firme e tudo o que o mundo tinha a me oferecer não passava de areia movediça. – é a areia movediça que ele oferece pra ver o tamanho da força que cada pessoa tem, tem gente que se afoga...

Mas é incrível como toda vez que eu acho que não vai dar mais pé, eu descubro em mim uma mulher guerreira. E chego a me perguntar – de onde vem tanta força?

Eu me perco nos meus devaneios, eu finjo ser fraca e eu grito pro mundo toda a minha dor – não pra que sintam pena de mim, mas talvez, pra que vejam, que por mais machucada que eu possa estar eu ainda terei forças pra recomeçar: ei, aprendam comigo, o mundo me deu mais uma de suas rasteiras e eu levantei, se eu posso, vocês também podem! Inocente que sou, grito pra que entendam que cada um tem dentro de si o poder de escolher se deixar afundar na areia movediça, porque é o mais fácil, ou sair de lá com um belo sorriso no rosto pra esconder os arranhões...

Talvez eu tenha nascido pra isso: pra recomeçar.

Eu construo castelos mesmo sabendo que eles, cedo ou tarde, irão desmoronar. E eu reconstruo um por um, incansavelmente, porque eu sei que um dia a vida vai se cansar de brincar de esconde-esconde comigo e vai entender meus milhões de sorrisos e me sorrir de volta.

Dentro do último castelo que desmoronou, vou lhes contar um segredo, ninguém suspeita, mas dentro daquele castelo tinha gente. É, eu estava lá, porque - iludida que sou - achei que aquele castelo havia sido construído sobre o melhor alicerce e que por isso eu não deveria ter medo e poderia morar dentro dele como princesa em conto de fadas. Mas, diferente dos contos, o príncipe fugiu e eu não sei ainda se ele fugiu por medo de não saber o que fazer comigo ou por não saber o que fazer com ele. E ele não quis me salvar, acho que ele não sabia que lá havia espaço pra ele, que o castelo era enorme o suficiente pra abrigar, não só ele, mas os dragões que ele havia matado pelo caminho, seu cavalo branco, suas histórias, seus amores passados, suas feridas antigas. Ele não sabia que ali havia espaço pra tanto e que eu poderia ensiná-lo a recomeçar, porque eu havia construído aquele castelo com tanto zelo especialmente pra ele. E eu achando que aquele príncipe me merecia e que eu o merecia também e que era muito justo a gente junto. Mas ele não poderia me salvar, sem antes salvar o seu próprio castelo, porque afinal de contas – sim, ele também tinha um castelo. E meu egoísmo não me deixou ver que quem precisava ser salvo era ele. E eu não tive tempo pra dizer que, por eu gostar tanto assim dele, eu saltaria da torre do meu castelo e o ajudaria a reconstruir o seu...

Ele foi embora e eu fiquei com as ruínas de mais um castelo, e eu achei que tinha perdido tudo, e eu achei que meu mundo tinha desmoronado e perdi o chão e achei a vida injusta e cá estou eu, incrivelmente renovada.

Ele – o príncipe não sabe, mas eu guardei todas as pedras daquele castelo e posso construir outro inteirinho só pra ele, se um dia ele voltar...

Enquanto isso, eu reconstruo o meu...


Taila Ueoka.

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