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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Envelheço na cidade


“Tão longe ficou o tempo, esse,
e pensarás no tempo, naquele,
e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes
como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou
tomar um trem para um lugar desconhecido
ou telefonar para um número qualquer
(e contar, contar, contar)
ou escrever uma carta tão desesperada
que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer...”
[Caio F.]


Como odiei aniversários. Os meus. Desde que me conheço por gente.

Minha imaginação sempre foi além. E eu sempre tive a convicção de que não havia lugar melhor pra viver do que a terra do nunca. Era pra lá que iria agora, se assim me fosse permitido.

Essa minha mania de fugir da realidade e inventar lugares bem melhores pra viver nasceu há muitos anos. Acho que desde que me foi permitido imaginar eu sonhava com outro mundo que não esse. E quando eu era criança o lugar perfeito era a terra do nunca. E eu, de fato, ainda queria que ela existisse, não só na minha imaginação.

Aniversário e fim de ano, nunca foram períodos bons pra mim. Porque nesses períodos somos obrigados a pensar ainda com mais força sobre nosso passado, presente e futuro. Comigo é assim, tento não pensar, tento fugir, mas o pensamento me assombra, junto com um milhão de perguntas sem respostas. A pior das perguntas é justamente a única que eu tenho a resposta: é isso que você esperava da sua vida? Não. Faço planos, refaço, e nunca os alcanço de fato. Eu esperava muito mais da vida e de mim. Se me perguntassem isso aos 12, seria essa a resposta. Se me perguntassem aos 15, seria essa a resposta. Se me perguntarem agora, essa é a resposta. E se me perguntarem aos 28, eu temo de que a resposta continue sendo a mesma.

Eu lembro perfeitamente das minhas conversas com as amigas, quando tínhamos 15 anos. Todas sonhavam e esperavam pelo dia em que completariam 18 anos. Pra elas, ter 18 anos seria alcançar, finalmente, a liberdade. Eu pensava: como são iludidas, ter 18 é exatamente o contrário. E dizia: por mim, eu pararia minha vida agora, desse jeito - se me fosse permitido escolher uma idade pra pausar o tempo e viver pra sempre, eu poderia parar por ali. Pensava: não tenho responsabilidade nenhuma, não preciso pagar minhas contas, nem lavar minhas roupas, nem fazer minha comida, vou de carona pra onde eu quiser, não gasto com gasolina, não sofro por amor, não preciso de homens, como e não engordo, sou feliz. É sou feliz assim, pra que ter 18?

Vou fazer 22 anos e continuo presa ao meu passado, continuo pensando que ter parado nos 15 era e melhor saída.

A vida me assusta demais. Me assusta tanto que me fez perder o medo do morte. Quem ama a vida acima de tudo, morre de medo de um dia deixá-la. Eu não morro desse medo.

Os planos que fiz quando tinha 15, são os mesmos que agora, quando estou a fazer 22 anos. Sete anos, meu Deus. Sete anos se passaram e meus planos são os mesmo. Adiados. Porém intactos. Com 15 anos eu já sabia o que eu queria pra mim com 22. Acontece que os 22 anos chegaram e eu não conquistei quase nada do que eu tanto sonhei com 15. No entanto a vida tão boa que eu levava já não é a mesma. Minha vida mudou muito depois dos 15. Em sete anos, quantos planos eu desfiz? Quantos deles eu conquistei? Quantas reviravoltas minha vida deu?

Comecei a namorar. Inventaram que eu era modelo, fiz minhas malas e viajei, fiquei seis meses fora. Voltei. Tudo estava ali, a vida pra eles que ficaram tinha parado, tudo me esperando do mesmo jeitinho que eu deixei. Inclusive o namorado. Terminei o terceiro ano. Consegui meia bolsa pelo Prouni, passei num concurso do IBGE, mudei pra Londrina, já tinha contas pra pagar, já tinha roupa pra lavar, já tinha comida pra fazer.

Eis a liberdade tão sonhada pelas minhas amiguinhas. Era a liberdade batendo na minha cara: você agora pode fazer o que quiser, pode ir pra baladas, pode fumar, pode transar, pode beber, em troca, meu bem, se vire pra sobreviver.

Comecei a faculdade, consegui um estágio, conheci pessoas novas, continuei namorando. Me privei de muitas coisas por esse namoro. Não me arrependo, não fiz por ele, fiz por mim, porque fazer o que é certo é a minha conduta até hoje. Isso não mudou. Participei do aprendiz, consegui a bolsa integral na faculdade pelo Prouni, terminei o namoro de quase seis anos, minha vida virou um inferno.

Liberdade meu bem, não era isso o que todo mundo queria. Assuma agora suas responsabilidades. Quis namorar, não quis. Se vire pra sair dessa.

Me virei, quase morri, voltei com muitas marcas, cicatrizes na alma que o tempo não apaga nunca.

Eu que tanto relutei em crescer, fui obrigada a crescer. Com 16 eu tinha a tão sonhada liberdade e a tão temida responsabilidade que a acompanha.

Com 22, olho pra trás, me orgulho do que me tornei, mas me frustro por saber que não fui capaz de realizar todos os planos que fiz quando tinha 15. Alguns deles sim, mas não todos. E agora adio esses planos e traço metas então para que eles sejam realizados da melhor forma até os 28. São seis anos, talvez dê tempo...

Odeio aniversários. Os meus.

Mas podem me dar os parabéns por estar envelhecendo...


Taila Ueoka.

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