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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Se esta for a última carta


"Exigimos o eterno do perecível, loucos "

e

"Não é saudade, porque para mim a vida é dinâmica
e nunca lamento o que se perdeu
- mas é sem dúvida uma sensação muito clara
de que a vida escorre talvez rápida demais e
, a cada momento, tudo se perde"


e

"Então, de repente, sem pretender,
respirou fundo e pensou que era bom viver.
Mesmo que as partidas doessem,
e que a cada dia fosse necessário adotar
uma nova maneira de agir e de pensar,
descobrindo-a inútil no dia seguinte
- mesmo assim era bom viver.
Não era fácil, nem agradável.
Mas ainda assim era bom. Tinha
quase certeza"
[Caio F.]



O que é preciso fazer pra entender a brevidade da vida?

Escrevo agora, como quem escreve a última carta. Escrevo como quem se despede desse mundo.

Por quantos desafios passei, quantas lutas travei, quantas batalhas perdi, quantas conquistas eu tive. Eis o mistério da vida.

Estou escrevendo com todo o peso do mundo no meu coração. Com a sensação que passei muito tempo escrevendo sobre sentimentos. Deveria ter falado mais.

Se tudo acabar agora, vou embora com o arrependimento de ter falado menos do que deveria, perdi meu tempo entre papéis e canetas e documentos do Word. Perdi meu tempo demonstrando sentimentos pra um papel.

Passei minha vida expulsando meus demônios, matando-os todos um a um. Amei numa folha de papel em branco. Perdoei numa folha de papel em branco. Agradeci numa folha de papel em branco.

Vão ficar histórias. Muitas histórias.

Quem eu amo, vai saber que é amado lendo meus rascunhos. Porque foi isso que eu fiz da minha vida. Um enorme rascunho. E agora, tenho a sensação que esse rascunho vai ser amassado, tal qual papel e jogado num lixo.

Registrei meus temores, anseios, desejos, amores, decepções, fracassos, conquistas, vitórias em páginas e mais páginas de um livro que poderia acabar a qualquer hora.

Nunca me importei com a brevidade da vida. Porque ela, a vida, sempre me assustou. Agora, com as luzes apagadas, ouço só a chuva caindo, o vento arrastando a cidade, vejo os clarões no céu, e não tenho medo da morte.

Meu maior medo é o de morrer agora sem ter tido a coragem que eu tanto esbravejei ter, e que eu tive, aliás, pra muitas coisas na minha vida, mas que me faltou quando eu tentei mensurar e falar do meu amor por meus amigos, por meus pais, pelo homem que amo.

Quantas pessoas passaram na minha vida... Quantas vidas de fato eu toquei? Quantas saíram intactas e inteiras diante de mim? Quantas vidas eu mudei? Quantas vidas se lembrarão de mim?

Se tudo acabar agora, meu maior desejo é que me leiam. Só uma alma tão inquieta quanto a minha seria capaz de escrever tanto, de se esconder por trás de histórias e personagens inventados para cada situação que passei.

Eu tive medo da vida. Essa é a maior verdade de todas. Eu escrevi sobre ela, mas sempre tive maior afinidade com a morte. Encarei a morte de frente e não fui capaz de encarar a vida.

Sentada nessa cama de um flat qualquer de uma cidade qualquer de um país qualquer, longe de tudo que amo, pensando que tudo pode acabar aqui, encaro pela primeira vez, a vida!

Será que só somos capazes de entendê-la quando ela se esvai? Será que só nos minutos finais entenderemos os nossos erros? Foram tantos...

Peço perdão por todos os erros, inclusive os que cometi apenas em pensamento, inclusive os que cometi apenas no papel.

Peço humildemente perdão aos meus pais. Os condenei por erros que cometi. Os culpei nos últimos seis anos por não tê-los entendido... eles só queriam o melhor pra mim.

Peço perdão ao meu pai. Quero dizer que o admiro. Que me inspirei no caráter dele pra formar o meu. E como me orgulho do meu caráter. Não fui capaz de fazer mal a uma mosca. Não fui capaz de mentir pra ninguém. Não fui capaz de odiar quem me fez mal. Não fui capaz de roubar uma bala sequer. Não fui capaz de amaldiçoar uma mísera pessoa. Se algum dia o condenei, talvez haja explicações plausíveis. Cresci querendo ser homem, distorci alguns valores que ele me ensinou. Prometi a mim mesma, que o único homem que poderia me cobrar algo, seria ele. Nunca deixei que um homem pagasse a conta. Nunca deixei que tivessem motivos para me cobrar nada. Me lembro ainda, que quando criança eu fingia dormir e escutava as discussões. Cresci e continuei assustada tal qual criança indefesa trancada no quarto com o travesseiro sobre os ouvido abafando as brigas que eu fingia não ver. Criei uma barreira que me impediu de sonhar com casamento, como sonha qualquer outra mulher. Mas repito, porque já escrevi isso em algum lugar, que meu pai foi e é o meu herói. Se eu pudesse voltar no tempo não teria desistido daquela viagem que nos distanciou tanto. Depois daquilo, nossa relação nunca mais voltou a ser como era. Eu sequer me lembro quando foi a última vez que nos abraçamos...

Peço perdão à minha mãe. Herdei dela essa alma inquietante e perturbada. Mas me inspirei na força dela para me tornar a guerreira que sou. Peço humildemente perdão de joelhos por tê-la tratado tão mal durante esses últimos anos. A condenei pela covardia em certos momentos, pela ambição desenfreada que eu repudiei desde sempre, por sua vontade de voltar ao tempo e de viver como quem tem 20 anos pro resto da vida. Eu sei bem o que é isso, mas aprendi a aceitar que cada idade tem seus prazeres e medos. Minha única ambição foi ser feliz. Talvez tenha sido a maior ambição dela também... Acho que se ela tivesse aprendido a transformar seus demônios em textos, viveria muito melhor.

Talvez eu nunca tenha sido um exemplo de filha no quesito sentimento. Fui birrenta. Fui mimada. E depois daquela viagem, comecei a tratar meus pais muito mal.

Acho que nenhum ser humano merecia ser tratado como muitas vezes eu tratei minha mãe. Com meu pai eu era mais cautelosa, uma alteraçãozinha de voz me rendia uns belos tapas. Minha mãe não encostava a mão em mim. Eu merecia ter levado muitos tapas por todas as vezes que eu não a tratei como mãe. Olho pra trás e vejo que estive longe de ser a melhor filha do mundo, por mais que tenha me esforçado em todos os outros quesitos, quis ser a melhor aluna, fiquei longe das drogas, contei todos os meus segredos, trabalhei, me banquei, não fiz grandes cagadas que pudessem envergonhá-los, fiz de tudo para deixá-los orgulhosos, mas errei demais por não compreendê-los. Meu maior erro foi esse, não compreendê-los. E eu me arrependo profundamente e peço perdão com toda força e humildade e verdade que há em mim.

Pedir perdão nos faz sentir tão pequenos, mas nos alivia e nos dá a chance de começar do zero e fazer tudo diferente... se essa não for a última carta.

Mas quero que eles saibam, os amei demais, com toda minha força, toda a minha ousadia. Amei demais, embora não tenha falado. Embora tenha demonstrado de uma maneira errada. Pra que soubessem do meu amor, era preciso que lessem meus rascunhos. Acho que esperei isso minha vida toda. E tive medo de falar.

Amei demais todas as pessoas que me cativaram, e foram muitas. Me interessei pela vida de todas as pessoas que eu amei, senti suas dores, suas alegrias. Sorri e chorei junto a eles. Amei tanto que algumas vezes quis roubar suas dores para que doessem só em mim, se isso me fosse permitido, teria feito muitas vezes.

Por muitos momentos da minha vida, duvidei da minha lucidez, confesso agora. Eu sempre senti demais. Meu mundo foi cheio de sensações que não cabiam em mim. Explodiam às vezes. E nesses momentos me achava diferente da maioria das pessoas. Fui feita pra sentir, num mundo em que sentimentos perderam os valores. E os sentimentos por vezes, roubaram minha lucidez. Fui mais emoção que razão por toda minha vida. Quando me sentia feliz, eu era mais feliz que todas as outras pessoas, porém quando a tristeza me assolava, eu era a mais pobre e infeliz criatura do mundo. Achei que fosse bipolar. A vida sempre foi demais pra mim.

Sei que não compreenderiam nunca alguns dos meus erros, nem me lendo, nem me vendo, nem me ouvindo. Mas eu me perdôo. Sim, eu me perdôo.

Se tudo acabar agora, tenho que dizer que aprendi muito nesses últimos dias. Ouso dizer, ainda que possa parecer precipitado demais, que sairei daqui conhecendo muito de mim. Sei que a maioria das pessoas que eu conheço, não se conhecem. Esbravejam qualidades, copiam personalidades, inventam máscaras, assumem personagens, mas nunca pararam um minuto pra pensar e aprender quem são de verdade. São todos super heróis, cheio de qualidades.

Meus últimos dias sozinha me fizeram ver coisas que eu não enxergava antes. Vim de um relacionamento que fez com que eu me sentisse um lixo. Supliquei às pessoas que me aceitassem, assim imperfeita. Enquanto eu exigia mais de mim pra poder me aceitar. Me olhei no espelho com calma. Analisei. Vi a mulher em que me tornei. Já não era mais a criança que se escondia no quarto e tapava os ouvidos com um travesseiro pra abafar as discussões dos meus pais. Fiz isso por muito tempo. Tapei os ouvidos pro mundo. Me sentia feia, me sentia burra, incapaz, insegura, covarde. Mas conheci uma mulher linda. Conheci uma mulher corajosa, que sempre lutou pelo que quis. Conheci uma mulher cheia de caráter e sinceridade. Conheci uma mulher inteligente. Conheci uma mulher cheia de defeitos, mas descobri minhas qualidades. Digo tudo isso, sem medo algum de parecer pretensiosa. Por todo o tempo, fui humilde até demais. E vou embora desse mundo me amando. Se estou pedindo perdão é porque já me perdoei. Estou pronta pra que me aceitem, porque já me aceitei. Estou pronta pra que me amem, porque aprendi a me amar com toda minha imperfeição.

Se esta for a ultima carta, muitos nomes irão faltar aqui. E são tantos pra citar, tantos pra pedir perdão, tantos pra falar de amor, e alguns até pra perdoar.

Mas o tempo está melhorando, o temporal passou, o vento acalmou, só a chuva forte continua.

Terei muito tempo para falar mais sobre sentimentos ao invés de escrever, e deixar bem claro as pessoas que amo, que as amo demais, e pedir perdão àqueles que eu magoei e decepcionei, e agradecer àqueles que tanto têm feito por mim, e perdoar uma pessoa que eu me relutei a perdoar durante um ano. Mas acho que ainda está em tempo de fazer isso.

Essa não será a última carta, mas a primeira de uma nova vida.


Taila Ueoka.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Coleciono histórias


"Repito sempre: sossega, sossega
- o amor não é para o teu bico."

[Caio F.]



Um dia me disseram que eu tinha alma de escritora. Deve ser por isso que insisto em amores impossíveis. Sofro, choro e escrevo, pra depois sorrir lendo o que escrevi pra alguém que nunca vai ler nada disso e ainda que leia, pela falta de sensibilidade, vai rir e achar loucura.

E não é loucura. Loucura seria guardar tudo isso dentro do meu peito. Minhas ilusões gritam pra serem exteriorizadas, elas querem o papel, e se jogam. No meu mais alto grau de desespero, elas despencam, uma a uma, pra morrerem numa folha de papel.

Fujo da loucura e te transformo em poesia, poema, conto, crônica, histórias, piadas até. Não tem melhor jeito pra esquecer um homem do que transformá-lo em literatura.

Não escolhi meus amores, nunca tive o dom de escolher. Ninguém tem esse dom. Acho que ainda que tivesse, escolheria os impossíveis. Minha alma inquieta me faz entrar em relacionamentos imaginando as histórias que eles podem render.

Inventei meu amor por você. Inventei sua indiferença por mim. Inventei tudo pra poder alimentar minha mente cansada das minhas últimas aventuras que não rendiam material suficiente pra que minhas ilusões quisessem o suicídio e fossem enterradas num papel em branco.

Talvez um dia isso me renda algo mais que lembranças e funerais.

Tenho um álbum sem fotografias que revela a história da minha vida e da minha falta de sorte no amor, onde coleciono histórias de amor que só existiram na minha imaginação e que nunca chegaram a se tornarem reais de fato.

Se eu tivesse sorte, não teria o álbum.

E talvez eu não troque o álbum por nenhuma história de amor real.

Taila Ueoka.

Envelheço na cidade


“Tão longe ficou o tempo, esse,
e pensarás no tempo, naquele,
e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes
como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou
tomar um trem para um lugar desconhecido
ou telefonar para um número qualquer
(e contar, contar, contar)
ou escrever uma carta tão desesperada
que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer...”
[Caio F.]


Como odiei aniversários. Os meus. Desde que me conheço por gente.

Minha imaginação sempre foi além. E eu sempre tive a convicção de que não havia lugar melhor pra viver do que a terra do nunca. Era pra lá que iria agora, se assim me fosse permitido.

Essa minha mania de fugir da realidade e inventar lugares bem melhores pra viver nasceu há muitos anos. Acho que desde que me foi permitido imaginar eu sonhava com outro mundo que não esse. E quando eu era criança o lugar perfeito era a terra do nunca. E eu, de fato, ainda queria que ela existisse, não só na minha imaginação.

Aniversário e fim de ano, nunca foram períodos bons pra mim. Porque nesses períodos somos obrigados a pensar ainda com mais força sobre nosso passado, presente e futuro. Comigo é assim, tento não pensar, tento fugir, mas o pensamento me assombra, junto com um milhão de perguntas sem respostas. A pior das perguntas é justamente a única que eu tenho a resposta: é isso que você esperava da sua vida? Não. Faço planos, refaço, e nunca os alcanço de fato. Eu esperava muito mais da vida e de mim. Se me perguntassem isso aos 12, seria essa a resposta. Se me perguntassem aos 15, seria essa a resposta. Se me perguntarem agora, essa é a resposta. E se me perguntarem aos 28, eu temo de que a resposta continue sendo a mesma.

Eu lembro perfeitamente das minhas conversas com as amigas, quando tínhamos 15 anos. Todas sonhavam e esperavam pelo dia em que completariam 18 anos. Pra elas, ter 18 anos seria alcançar, finalmente, a liberdade. Eu pensava: como são iludidas, ter 18 é exatamente o contrário. E dizia: por mim, eu pararia minha vida agora, desse jeito - se me fosse permitido escolher uma idade pra pausar o tempo e viver pra sempre, eu poderia parar por ali. Pensava: não tenho responsabilidade nenhuma, não preciso pagar minhas contas, nem lavar minhas roupas, nem fazer minha comida, vou de carona pra onde eu quiser, não gasto com gasolina, não sofro por amor, não preciso de homens, como e não engordo, sou feliz. É sou feliz assim, pra que ter 18?

Vou fazer 22 anos e continuo presa ao meu passado, continuo pensando que ter parado nos 15 era e melhor saída.

A vida me assusta demais. Me assusta tanto que me fez perder o medo do morte. Quem ama a vida acima de tudo, morre de medo de um dia deixá-la. Eu não morro desse medo.

Os planos que fiz quando tinha 15, são os mesmos que agora, quando estou a fazer 22 anos. Sete anos, meu Deus. Sete anos se passaram e meus planos são os mesmo. Adiados. Porém intactos. Com 15 anos eu já sabia o que eu queria pra mim com 22. Acontece que os 22 anos chegaram e eu não conquistei quase nada do que eu tanto sonhei com 15. No entanto a vida tão boa que eu levava já não é a mesma. Minha vida mudou muito depois dos 15. Em sete anos, quantos planos eu desfiz? Quantos deles eu conquistei? Quantas reviravoltas minha vida deu?

Comecei a namorar. Inventaram que eu era modelo, fiz minhas malas e viajei, fiquei seis meses fora. Voltei. Tudo estava ali, a vida pra eles que ficaram tinha parado, tudo me esperando do mesmo jeitinho que eu deixei. Inclusive o namorado. Terminei o terceiro ano. Consegui meia bolsa pelo Prouni, passei num concurso do IBGE, mudei pra Londrina, já tinha contas pra pagar, já tinha roupa pra lavar, já tinha comida pra fazer.

Eis a liberdade tão sonhada pelas minhas amiguinhas. Era a liberdade batendo na minha cara: você agora pode fazer o que quiser, pode ir pra baladas, pode fumar, pode transar, pode beber, em troca, meu bem, se vire pra sobreviver.

Comecei a faculdade, consegui um estágio, conheci pessoas novas, continuei namorando. Me privei de muitas coisas por esse namoro. Não me arrependo, não fiz por ele, fiz por mim, porque fazer o que é certo é a minha conduta até hoje. Isso não mudou. Participei do aprendiz, consegui a bolsa integral na faculdade pelo Prouni, terminei o namoro de quase seis anos, minha vida virou um inferno.

Liberdade meu bem, não era isso o que todo mundo queria. Assuma agora suas responsabilidades. Quis namorar, não quis. Se vire pra sair dessa.

Me virei, quase morri, voltei com muitas marcas, cicatrizes na alma que o tempo não apaga nunca.

Eu que tanto relutei em crescer, fui obrigada a crescer. Com 16 eu tinha a tão sonhada liberdade e a tão temida responsabilidade que a acompanha.

Com 22, olho pra trás, me orgulho do que me tornei, mas me frustro por saber que não fui capaz de realizar todos os planos que fiz quando tinha 15. Alguns deles sim, mas não todos. E agora adio esses planos e traço metas então para que eles sejam realizados da melhor forma até os 28. São seis anos, talvez dê tempo...

Odeio aniversários. Os meus.

Mas podem me dar os parabéns por estar envelhecendo...


Taila Ueoka.