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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Entre um adeus e outro.

"- Talvez seja esse o problema. Uma vida sem manhãs.
Estranho é que não escolhi. Não consigo precisar o momento em que escolhi.
Nem isso, nem qualquer outra coisa, nem nada. Foram me arrastando.
Não houve aquele momento em que você pode decidir se vai em frente,
se volta atrás, se vira à esquerda ou à direita.
Se houve, eu não lembro. Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando.
Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito.
Sem se importarem se eu não queria mais ir.
Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui.
Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer,
O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer.
- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.
- A coisa ou a pessoa?
- As duas."
(Caio F.)



É que entre um adeus e outro o coração – por defesa – aprendeu a não se manifestar.

E não se manifestando sua vida se tornou tão sem graça, tão morna, nada mais lhe afetava. A tristeza passava longe em contrapartida a felicidade também fugia dela.

Na época em que seu coração mesmo ferido ainda sentia, ainda dava chance pras pessoas, ainda se dava chance, ela era feliz... ela era triste. Ela sentia!

E não é esse o sentido da vida? Não é necessário sentir pra saber-se vivo? Não é necessário sentir-se vivo?

E quando o coração parou – não de bater, mas de apanhar, uma parte dela também morreu. A parte mais bonita.

Não se emocionava mais com uma borboleta colorida que vez ou outra pousava em seu ombro. Não se emocionava mais com o menino da TV que venceu a pobreza e a miséria e o preconceito e se tornou ‘alguém’ na vida. Não se emocionava mais com aquela música que tocava todo dia no rádio e que já havia sido motivo de muitas lembranças e lágrimas e risos.

Entre um adeus e outro a vida perdeu a cor e ela se tornou uma daquelas pessoas cinzas que tanto lhe repugnavam. Que lhe dava enjôo. Mas ela já não sentia mais nojo dos milhares de seres cinzas que habitam o mundo, porque agora ela os compreendia, ela era um deles. São cinzas porque de tanto colorir suas vidas e as vidas de outras pessoas, acabaram-se os lápis coloridos e só lhe restaram o preto e o branco.

Se o seu coração ainda sentisse, se o seu coração ainda a ouvisse, ela certamente lhe suplicaria:

- Sinto muito, mas eu preciso que você volte a doer pra que eu volte a viver! Eu preciso sentir muito mais!


Taila Ueoka.


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